Você já rezou o Pai Nosso centenas de vezes. Talvez milhares. Agora pense nisto: um israelita que viveu mil anos antes de Jesus quase nunca teria orado assim. Em todo o Antigo Testamento, Deus é chamado diretamente de Pai apenas 15 vezes [1].
Então, sim, Deus é Pai. A Bíblia afirma isso do Êxodo ao Apocalipse. Mas a palavra "Pai" demorou séculos para sair do fundo do texto e virar o jeito normal de falar com Deus. Quem fez essa virada foi Jesus. E ele usou uma palavra aramaica que costuma ser traduzida errado nas pregações: Abba.
A paternidade de Deus é uma aliança que amadurece ao longo dos séculos. No Antigo Testamento, Deus é Pai do povo da promessa e do rei ungido. No Novo Testamento, por meio de Cristo, a palavra que o Filho usou no Getsêmani passa para a boca de todo aquele que foi adotado na família da fé.
Vamos examinar essa trajetória, do hebraico ao aramaico, com todos os versículos e fontes na mesa.
Deus é Pai na Bíblia? A resposta curta
Deus é Pai na Bíblia em dois sentidos principais. No Antigo Testamento, Deus é Pai de Israel como nação e de indivíduos específicos ligados à aliança, como o rei da linhagem de Davi. No Novo Testamento, Deus é Pai de Jesus de um jeito único por natureza e, por meio de Jesus, Pai de todos os que creem nele, por adoção.
O Antigo Testamento usa a palavra hebraica אָב (av), "pai". O Novo Testamento usa o grego πατήρ (patēr) e, três vezes, o aramaico Ἀββᾶ (Abba) [2].
A diferença entre os dois testamentos está na frequência e no tom. Segundo o teólogo Robert H. Stein, no Baker's Evangelical Dictionary of Biblical Theology, Deus é chamado de Pai apenas 15 vezes no Antigo Testamento. Nos lábios de Jesus, a palavra aparece cerca de 65 vezes nos três primeiros evangelhos e mais de 100 vezes em João [1].
Quantas vezes Deus é chamado de Pai no Antigo Testamento?
Deus é chamado especificamente de Pai 15 vezes no Antigo Testamento, segundo a contagem de Robert H. Stein [1]. Nove dessas ocorrências se referem à nação de Israel. Seis se referem a indivíduos, quase todos ligados à promessa feita a Davi. Aqui estão todos os versículos documentados:
| Referência | Filho de quem Deus é Pai | Texto (ARA) |
|---|---|---|
| Deuteronômio 32:6 | Israel | "É assim que recompensas ao Senhor, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?" |
| Isaías 63:16 (duas vezes) | Israel | "Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade." |
| Isaías 64:8 | Israel | "Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos." |
| Jeremias 3:4 | Israel | "Não é fato que agora mesmo tu me invocas, dizendo: Pai meu, tu és o amigo da minha mocidade?" |
| Jeremias 3:19 | Israel | "Mas eu a mim me perguntava: como te porei entre os filhos e te darei a terra desejável, a mais formosa herança das nações? E respondi: Pai me chamarás e de mim não te desviarás." |
| Jeremias 31:9 | Israel | "Virão com choro, e com súplicas os levarei; guiá-los-ei aos ribeiros de águas, por caminho reto em que não tropeçarão; porque sou pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito." |
| Malaquias 1:6 | Os sacerdotes de Israel | "O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo?" |
| Malaquias 2:10 | Israel | "Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, profanando a aliança de nossos pais?" |
| 2 Samuel 7:14 | O descendente de Davi | "Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens." |
| 1 Crônicas 17:13 | O descendente de Davi | "Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; a minha misericórdia não apartarei dele, como a retirei daquele que foi antes de ti." |
| 1 Crônicas 22:10 | Salomão | "Este edificará casa ao meu nome; ele me será por filho, e eu lhe serei por pai; estabelecerei para sempre o trono do seu reino sobre Israel." |
| 1 Crônicas 28:6 | Salomão | "E me disse: Teu filho Salomão é quem edificará a minha casa e os meus átrios, porque o escolhi para filho e eu lhe serei por pai." |
| Salmo 68:5 | Os órfãos | "Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus em sua santa morada." |
| Salmo 89:26 | O rei | "Ele me invocará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus e a rocha da minha salvação." |
Ao analisar esse quadro, dois padrões textuais saltam aos olhos:
1. Quase não existe oração individual. A paternidade de Deus no Antigo Testamento é coletiva, comunitária e fundamentada na aliança. Deus é Pai do povo que ele resgatou da servidão no Egito:
"Dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito." (Êxodo 4:22, ARA)
2. A imagem paterna aparece com frequência sem o substantivo explícito. O profeta Oseias descreve o Senhor como um pai zeloso que ensina a criança a dar os primeiros passos:
"Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho." (Oseias 11:1, ARA)
"Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os curava." (Oseias 11:3, ARA)
O Salmo 103 expressa essa mesma comparação com total transparência afetiva:
"Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó." (Salmo 103:13 e 14, ARA)
A figura e o afeto de pai estão presentes no cânon veterotestamentário. No entanto, o tratamento direto ainda era solene e raro.
Deus como Pai no Antigo Testamento: um Pai que cobra
O Deus Pai do Antigo Testamento surge frequentemente em cenários em que o filho quebrou a confiança da aliança. Parte das 15 passagens expressa repreensão e cobrança moral (Deuteronômio 32, Jeremias 3, Malaquias 1). Outra parte é a súplica quebrantada de quem reconhece o erro e volta ao lar (Isaías 63 e 64).
Deuteronômio 32 apresenta o registro mais antigo desse confronto:
"Procederam corruptamente contra ele, já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada. É assim que recompensas ao Senhor, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?" (Deuteronômio 32:5 e 6, ARA)
Aqui, o título de Pai entra no texto como uma advertência contundente contra a ingratidão do povo. Séculos mais tarde, Malaquias retoma o mesmo tom ao interpelar a liderança religiosa:
"O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra?" (Malaquias 1:6, ARA)
Por outro lado, Isaías 63 traz um dos momentos mais profundos de toda a Escritura. O povo reconhece que se corrompeu e clama com aquilo que resta quando todas as outras garantias humanas ruíram:
"Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade. Ó Senhor, por que nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que te não temamos? Volta, por amor dos teus servos e das tribos da tua herança." (Isaías 63:16 e 17, ARA)
Abraão, o patriarca terreno, não podia garantir a salvação da descendência. A herança genealógica não sustentava a nação. O único refúgio seguro era o próprio Deus como Pai. No texto hebraico, a expressão empregada é אָבִינוּ (avinu), "nosso pai" [3].
Vale uma observação textual importante: quem lê a Bíblia King James Atualizada (KJA) encontra a frase "Abba, Pai" em Isaías 63:16 e Malaquias 2:10. Todavia, os manuscritos hebraicos dessas passagens trazem rigorosamente avinu e av [3][4]. O termo Abba é aramaico e pertence ao vocabulário preservado no Novo Testamento grego. A presença de "Abba" no Antigo Testamento da KJA reflete uma escolha interpretativa dos seus tradutores modernos, e não uma palavra aramaica no hebraico original.
O que significa Abba? Não é "papai"
Abba é a palavra aramaica para "pai" ou "meu pai", usada como invocação e vocativo direto. Ela ocorre três vezes em todo o Novo Testamento, invariavelmente acompanhada da tradução grega patēr ("Pai"): Marcos 14:36, Romanos 8:15 e Gálatas 4:6 [2].
É muito comum ouvir em pregações populares que Abba equivaleria ao nosso "papai" ou "paizinho". Essa tese foi difundida pelo teólogo alemão Joachim Jeremias em meados do século 20, sugerindo que se tratava de uma linguagem balbuciada por crianças de colo [5].
Em 1988, o conceituado filólogo e linguista James Barr publicou um estudo decisivo no periódico Journal of Theological Studies intitulado "Abbā Isn't Daddy" (Abba não é papai). Barr demonstrou documentalmente que, embora Abba pertencesse à esfera das relações familiares cotidianas, não era uma expressão infantil ou diminutiva, mas sim uma forma madura, afetuosa e respeitosa de se dirigir ao próprio pai [5]. O próprio Joachim Jeremias reviu e moderou suas conclusões após o trabalho de Barr.
Em termos precisos: Abba expressa a linguagem com que um filho maduro fala com o pai com intimidade profunda e reverência simultânea.
O contexto neotestamentário corrobora essa sobriedade. A única vez em que os evangelhos registram Jesus pronunciando Abba ocorre no jardim do Getsêmani, em agonia antes da cruz:
"E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres." (Marcos 14:36, ARA)
Essa não é a linguagem infantil de um bebê. É a entrega consciente, obediente e sacrificial de um Filho que se submete à vontade do Pai no momento de maior angústia.
