O Evangelho de Tomé é uma coleção de 114 ditos atribuídos a Jesus, sem narrativa da vida dele e sem menção à crucificação ou à ressurreição, que não entrou no Novo Testamento. O texto completo sobrevive em uma única cópia, em copta, dentro de um códice do século 4 achado perto de Nag Hammadi, no Egito, no fim de 1945 [1][2]. Sobre a data em que o livro foi composto, os estudiosos não chegaram a um acordo [1].
Por quase meio século, pedaços desse livro foram estudados sem que se pudesse confirmar de que obra vinham. Três papiros em grego saíram de um antigo depósito de lixo no Egito, na virada para o século 20, com frases de Jesus [3]. O códice de Nag Hammadi confirmou que os fragmentos eram do Evangelho de Tomé [3].
As menções antigas ao Evangelho de Tomé que chegaram até nós já tratam o livro como texto de fora. A mais antiga é de Hipólito de Roma, escrita entre 222 e 235, cerca de um século antes do Concílio de Niceia.
Neste estudo, com os versículos e as fontes na mesa, você vai ver:
- o que é o Evangelho de Tomé e o que ele não traz;
- os quatro manuscritos: um códice copta e três papiros gregos;
- as datas propostas para a composição, e quem defende cada uma;
- ditos de Tomé lado a lado com versículos da ARA;
- por que "gnóstico" é um rótulo discutido;
- o que Hipólito, Orígenes e Eusébio escreveram, e o que Niceia não decidiu.
O que é o Evangelho de Tomé?
O Evangelho de Tomé é uma lista de 114 ditos independentes, quase todos atribuídos a Jesus [1]. O e-Clavis, catálogo acadêmico de apócrifos cristãos, avisa que Tomé "não é um evangelho no sentido tradicional" [1]. Falta a história: o livro não narra a vida de Jesus e não menciona a crucificação, a ressurreição nem o juízo final [2].
A primeira linha avisa o que vem pela frente:
"Estes são os ditos secretos que Jesus, o vivo, pronunciou e que Dídimo Judas Tomé escreveu." (Evangelho de Tomé, prólogo, traduzido do inglês de Thomas O. Lambdin)
O dito 1 dá a regra de leitura: "Quem encontrar a interpretação destes ditos não experimentará a morte" [4].
Quase dois terços dos ditos lembram frases dos evangelhos canônicos, e 13 das 16 parábolas do livro também aparecem nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) [2].
Quem escreveu o Evangelho de Tomé?
O prólogo atribui o registro a Dídimo Judas Tomé. O nome remete ao discípulo que o quarto evangelho apresenta assim: "Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus." (João 20:24, ARA).
A maioria dos estudiosos não considera o apóstolo Tomé o autor do livro. Quem escreveu continua desconhecido [2].
Evangelho de Tomé e Evangelho da Infância de Tomé: dois livros
O Evangelho da Infância de Tomé é outro texto. Ele conta episódios da vida de Jesus dos cinco aos doze anos, e na forma mais antiga nem trazia o nome de Tomé: o título era "Os feitos da infância de Jesus" [5]. A confusão vem do nome: "Evangelho de Tomé" é um dos títulos pelos quais esse outro livro também ficou conhecido [5].
Onde o Evangelho de Tomé foi encontrado? Os quatro manuscritos
O Evangelho de Tomé foi encontrado no Egito, em quatro manuscritos: um códice em copta, com o texto inteiro, e três fragmentos de papiro em grego [1].
| Manuscrito | O que contém | Data da cópia | Onde está hoje |
| Códice II de Nag Hammadi, páginas 32 a 51, em copta | Os 114 ditos | Século 4 [1]; por volta de 340 [2] | Museu Copta, Cairo |
| P. Oxy. 1, em grego | Ditos 26 a 30, fim do 77 e 31 a 33 | Século 2 [1] ou século 3 [6]; "não muito depois do ano 200", para os primeiros editores [6] | Biblioteca Bodleiana, Oxford |
| P. Oxy. 654, em grego | Das linhas de abertura ao dito 7 | Cerca de 200 a 250 [1]; meados ou fim do século 3 [7] | Biblioteca Britânica, Londres |
| P. Oxy. 655, em grego | Ditos 24 e 36 a 39 | Século 3 [1] | Biblioteca Houghton, Harvard |
Oxirrinco, 1897: os ditos de Jesus em grego
Os fragmentos gregos apareceram primeiro. Na temporada de 1896 a 1897, em Oxirrinco, os pesquisadores de Oxford B. P. Grenfell e A. S. Hunt escavaram uma folha de papiro com ditos de Jesus e a publicaram ainda em 1897, com o título Sayings of Our Lord ("Ditos de Nosso Senhor"). Foi o primeiro papiro de Oxirrinco a ser publicado [6].
Os outros dois fragmentos foram achados no mesmo sítio entre 1897 e 1904 e saíram em 1904, no volume 4 da série [7]. Faltava confirmar a que livro aquelas frases pertenciam.
Nag Hammadi, 1945: o texto inteiro
A confirmação veio de um achado do fim de 1945. Perto de Nag Hammadi, no Alto Egito, o agricultor Muhammed al-Samman e outros encontraram um jarro selado com doze códices de papiro encadernados em couro e um tratado de um décimo terceiro, todos em copta [8].
Os paralelos com o texto copta mostraram que os papiros de Oxirrinco pertenciam à versão grega do mesmo livro, próxima da copta, mas não idêntica [6].
Quando o Evangelho de Tomé foi escrito?
As datas propostas para o Evangelho de Tomé vão de meados do século 1 ao fim do século 2, e não há consenso dentro dessa faixa. O e-Clavis registra: "Não há acordo amplo sobre quando Tomé foi composto" [1].
Os limites são de Ron Cameron, no Anchor Bible Dictionary: a data mais antiga possível ficaria "em meados do século 1", e a mais recente, "perto do fim do século 2" [9]. Dentro da faixa, as propostas se espalham:
| Data proposta | Quem defende | Argumento principal |
| Por volta de 70 a 80 | Stephen J. Patterson | Os ditos vêm de uma tradição paralela à dos sinóticos [9] |
| Um núcleo antes do fim do século 1 | O grupo da data antiga, com argumentos de Stevan Davies, Helmut Koester, Theissen e Merz | A coleção de ditos é uma das formas mais antigas de transmissão [2] |
| Início do século 2 | Bart Ehrman; para Bock, é a posição da maioria | O livro teria sido composto depois dos evangelhos canônicos [2] |
| Depois de 172 | Nicholas Perrin | Tomé dependeria do Diatessaron de Taciano [2] |
A divisão gira em torno de uma pergunta: o autor de Tomé conhecia Mateus, Marcos e Lucas? Quem responde que não tende à data antiga. Quem responde que sim, como Mark Goodacre, põe o livro depois deles [2].
A síntese da Wikipedia diz que a maior parte dos estudiosos situa a composição no século 2 [2]. Sobre o lugar, Cameron e Patterson apontam para o leste da Síria [9], e outros sugerem Alexandria [2].
O que diz o Evangelho de Tomé? Os ditos e os paralelos
O Evangelho de Tomé traz ditos que quase repetem os evangelhos canônicos e ditos sem par no Novo Testamento. As citações de Tomé neste estudo foram traduzidas pela equipe a partir da versão inglesa de Thomas O. Lambdin, feita do copta [4].
| Dito | Evangelho de Tomé (do inglês de Lambdin) | Evangelho canônico |
| 54 | "Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o Reino dos Céus." | "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus." (Lucas 6:20, ARA) |
| 113 | "Não será o caso de dizer 'Ei-lo aqui' ou 'Ei-lo ali'. Antes, o Reino do Pai está espalhado sobre a terra, e os homens não o veem." | "Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós." (Lucas 17:21, ARA) |
Outros ditos seguem por um caminho que os quatro evangelhos não têm:
"Eu sou a luz que está acima de todos eles. Eu sou o Todo. De mim saiu o Todo, e até mim o Todo se estendeu. Rache um pedaço de madeira, e eu estou ali. Levante a pedra, e você me encontrará ali." (Evangelho de Tomé, dito 77, traduzido do inglês de Thomas O. Lambdin)
Repara no detalhe. No códice copta, a madeira e a pedra fecham o dito 77. No papiro grego P. Oxy. 1, o mesmo trecho aparece junto do dito 30 [1].
O Evangelho de Tomé é gnóstico?
O Evangelho de Tomé é classificado como gnóstico por muitos estudiosos, e a classificação é contestada por outros [2]. Os críticos lembram que falta em Tomé a mitologia completa do gnosticismo que Irineu de Lião descreve [2].
Simon Gathercole, estudioso do Novo Testamento, descreve os dois lados. Reconhece que "o corpo e o mundo são vistos sob uma luz negativa em Tomé" e cita o dito 56: "Quem veio a conhecer o mundo encontrou um cadáver" [3]. Só que o livro não fala de um demiurgo mau, o que sempre foi um embaraço para a leitura gnóstica. E também não funciona, diz ele, tratar Tomé como vizinho próximo do cristianismo do Novo Testamento [3].
O "conhecimento" de 1 Timóteo 6:20 nas traduções
A palavra grega para conhecimento é gnōsis, que aparece 29 vezes no Novo Testamento [10]. Em uma dessas passagens, as traduções em português se dividem:
| Tradução | 1 Timóteo 6:20 |
| Almeida Revista e Atualizada (ARA) | "as contradições do saber, como falsamente lhe chamam" |
| Almeida Corrigida Fiel (ACF) | "oposições da falsamente chamada ciência" |
| Nova Versão Internacional (NVI) | "do que é falsamente chamado conhecimento" |
Saber, ciência, conhecimento: três saídas para a mesma palavra. O léxico de Thayer entende que, nesse versículo, gnōsis é o conhecimento superior das coisas divinas de que falsos mestres se gabavam [10]. A carta não cita livro nenhum, e ligar o versículo ao Evangelho de Tomé seria ir além do texto.
Por que o Evangelho de Tomé não está na Bíblia?
O Evangelho de Tomé não está na Bíblia porque os escritores cristãos antigos que o citam pelo nome o rejeitam. Antes da descoberta dos manuscritos, o livro só era conhecido por essas denúncias [1]. Três delas:
- Hipólito de Roma (entre 222 e 235). Conta que um grupo, os naassenos, usava um "Evangelho intitulado segundo Tomé" e transcreve uma frase dele: "Quem me procura me encontrará em crianças a partir dos sete anos" [11]. É a referência escrita mais antiga que sobreviveu, e parece remeter, com redação bem diferente, ao dito 4 [2].
- Orígenes (por volta de 233). Põe o "Evangelho segundo Tomé" entre os evangelhos apócrifos heterodoxos que conhecia [2].
- Eusébio de Cesareia. Na História Eclesiástica, lista os evangelhos "de Pedro, de Tomé, de Matias" entre os livros "citados pelos hereges sob o nome dos apóstolos" [12].
Os três critérios de Eusébio
O capítulo de Eusébio começa pelos livros aceitos, com "o santo quarteto dos Evangelhos" em primeiro lugar [12]. Contra os evangelhos de Pedro, Tomé e Matias, ele dá três razões [12]:
- Uso. Nenhum autor da sucessão dos escritores eclesiásticos os julgou dignos de menção.
- Estilo. "O caráter do estilo destoa do uso apostólico."
- Conteúdo. O pensamento e a intenção do que eles narram estão em desacordo com a ortodoxia.
É o mesmo Eusébio que descreve a redescoberta do túmulo de Jesus, como mostramos no estudo sobre onde Jesus foi crucificado.
O Concílio de Niceia escolheu os evangelhos?
O Concílio de Niceia, reunido no ano 325, não escolheu os evangelhos. Bart D. Ehrman resume no seu blog: o concílio "não debateu nem decidiu quais livros deveriam pertencer à Escritura", e existem registros das questões e das decisões daquela assembleia. Ele supõe que a ideia venha sobretudo da leitura do romance O Código Da Vinci [13].
O Evangelho de Tomé é verdadeiro?
Como documento antigo, o Evangelho de Tomé é autêntico: quatro manuscritos dele estão em museus e bibliotecas [1]. Como obra do apóstolo Tomé, a maioria dos estudiosos responde que não [2].
O fio condutor: de Tomé, que quis ver, aos que creram sem ver
O Tomé dos evangelhos canônicos é lembrado por pedir prova, e a cena liga o discípulo a uma linha que atravessa a Bíblia: a das testemunhas. É o que chamamos no Fio da Rabiola de fio condutor. A Lei já exigia mais de uma voz: "pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato" (Deuteronômio 19:15, ARA).
Lucas abre o seu evangelho nesse registro. Diz que escreve "conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra" (Lucas 1:2, ARA), depois de investigar tudo desde a origem.
João conta que Tomé não aceitou o relato dos outros discípulos. Oito dias depois, Jesus veio e mandou que ele visse as suas mãos e tocasse o seu lado:
"Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram." (João 20:28 e 29, ARA)
Logo em seguida, o evangelista diz para que escreveu: "Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." (João 20:31, ARA).
Aqui os dois tipos de livro se separam. Lucas e João se apresentam como relato apoiado em testemunhas, e os quatro evangelhos narram a cruz e a ressurreição. O Evangelho de Tomé se apresenta como coleção de ditos secretos, diz que não experimentará a morte quem achar a interpretação e não se ocupa da morte nem da ressurreição de Jesus [1][4]. São dois tipos de livro, e os escritores antigos citados acima já tratavam Tomé como livro à parte.
O Tomé de João aparece antes, em João 14:5, perguntando pelo caminho. A resposta de Jesus está no estudo sobre João 14:6 no grego.
Estudos relacionados no Fio da Rabiola
Fontes consultadas
As citações bíblicas são da Almeida Revista e Atualizada (ARA), conferidas em duas edições do acervo do Fio da Rabiola (1993 e 2010), salvo quando outra tradução é indicada. As citações de fontes em inglês, inclusive os ditos do Evangelho de Tomé, foram traduzidas pela equipe.
- Christopher W. Skinner (Loyola University Chicago), "Gospel of Thomas", e-Clavis: Christian Apocrypha, North American Society for the Study of Christian Apocryphal Literature (NASSCAL), outubro de 2019. Acesso ao verbete
- "Gospel of Thomas", síntese da pesquisa sobre o texto, a datação e as referências antigas. Wikipedia (em inglês). Acesso ao verbete
- Robin Ngo, "The Sayings of Jesus in the Gospel of Thomas", Bible History Daily, Biblical Archaeology Society, a partir de Simon Gathercole, "The Gospel of Thomas: Jesus Said What?", Biblical Archaeology Review, julho e agosto de 2015. Acesso ao artigo
- "The Gospel of Thomas", tradução do copta por Thomas O. Lambdin, com os fragmentos gregos por B. P. Grenfell, A. S. Hunt e Bentley Layton. Internet Sacred Text Archive. Acesso ao texto
- Tony Burke (York University), "Infancy Gospel of Thomas", e-Clavis: Christian Apocrypha, NASSCAL. Acesso ao verbete
- Bruce C. Barker-Benfield (Bodleian Library, Oxford), "The Sayings of Jesus (Logia Jesou)", ensaio sobre o papiro P. Oxy. 1. National Museum of Asian Art, Smithsonian Institution (asia.si.edu). Acesso ao ensaio
- "Papyrus Oxyrhynchus 654" e "Papyrus Oxyrhynchus 655", descoberta e publicação dos fragmentos. Wikipedia (em inglês). Acesso ao verbete do P. Oxy. 654 e ao do P. Oxy. 655
- "Nag Hammadi library", descoberta e conteúdo dos códices. Wikipedia (em inglês). Acesso ao verbete
- "Gospel of Thomas", Early Christian Writings, com trechos de Ron Cameron (The Anchor Bible Dictionary, vol. 6) e de Stephen J. Patterson (The Gospel of Thomas and Jesus, 1993). Acesso à página
- Strong's Greek Lexicon, G1108, gnōsis, com o léxico de Thayer. Blue Letter Bible. Acesso ao léxico
- Hipólito, Refutação de todas as heresias, livro 5, capítulo 2. New Advent. Acesso ao texto
- Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, livro 3, capítulo 25. Bibliothek der Kirchenväter, Universidade de Friburgo. Acesso ao texto
- Bart D. Ehrman, "Did the Council of Nicaea Take Away Reincarnation and Give Us the Bible?", blog do autor (ehrmanblog.org), 8 de janeiro de 2017. Acesso ao artigo