Os evangelhos sinóticos são Mateus, Marcos e Lucas: três livros que contam muitas das mesmas histórias, muitas vezes na mesma sequência e com palavras parecidas. O nome vem do grego synopsis, "ver tudo junto", e é usado para os três desde a década de 1780 [1][2]. A explicação mais aceita para tanta semelhança é que Mateus e Lucas tiveram Marcos como fonte [1].
Quem lê os quatro evangelhos em sequência percebe depressa. Mateus, Marcos e Lucas parecem versões de um mesmo roteiro. João parece outro livro.
A dúvida que vem em seguida costuma ser uma só: se os três contam a mesma coisa, quem copiou de quem?
A explicação mais difundida para a semelhança entre Mateus, Marcos e Lucas é uma relação literária entre os três. A maioria dos estudiosos põe Marcos em primeiro lugar, há quem dê mais peso à tradição oral e à memória, e nenhuma solução é definitiva [1].
Neste estudo, com os versículos e as fontes na mesa, você vai ver:
- o que quer dizer "sinótico" e de onde veio o nome;
- quanto de Marcos reaparece em Mateus e em Lucas, em números;
- um mesmo episódio lado a lado nos três evangelhos;
- as quatro hipóteses sobre qual evangelho veio primeiro, e o que é a fonte Q;
- por que João ficou fora do grupo;
- a frase de Marcos 1:2 que muda de uma Bíblia para outra.
O que são os evangelhos sinóticos?
Os evangelhos sinóticos são os três primeiros livros do Novo Testamento: Mateus, Marcos e Lucas. Eles recebem esse nome porque incluem muitas das mesmas histórias, muitas vezes em sequência parecida e com redação parecida [1].
Os três cabem lado a lado, em colunas. Em 1776, Johann Jakob Griesbach publicou uma sinopse desses evangelhos: em vez de fundir os três em uma narrativa só, imprimiu os textos lado a lado, deixando à vista o que coincide e o que diverge [1]. Desde a década de 1780, os três são chamados de evangelhos sinóticos [2].
"Sinótico" vem do grego synopsis, "ver tudo junto" [1].
Quanto Mateus, Marcos e Lucas têm em comum?
Mateus, Marcos e Lucas têm em comum a maior parte de Marcos e cerca de metade de Mateus e de Lucas [1]. Os estudiosos separam esse material em camadas:
| Camada | Onde aparece | Tamanho e exemplos |
|---|---|---|
| Tradição tripla | Mateus, Marcos e Lucas | A maior parte de Marcos e cerca de metade de Mateus e de Lucas. Em geral, na mesma ordem nos três [1] |
| Tradição dupla | Mateus e Lucas, sem Marcos | Cerca de 200 versículos: a pregação de João Batista, a tentação, o Sermão do Monte, o servo do centurião [1] |
| Material próprio | Um evangelho só | Em Mateus, sobretudo parábolas. Em Lucas, parábolas e curas. Cada um tem o seu relato da infância [1]. Em Marcos, só quatro episódios [3] |
Agora os números. Pela contagem citada pelo estudioso Robert H. Stein, 97,2% das palavras de Marcos têm paralelo em Mateus, e 88,4% têm paralelo em Lucas [1].
Paralelo é diferente de cópia: o trecho tem correspondente no outro evangelho, e a redação pode variar. Esse tipo de número também muda conforme o grau de semelhança que se exige para contar um trecho como comum [1].
Repara no detalhe. Marcos é de longe o mais curto dos três e não traz relato do nascimento de Jesus [3]. Mateus e Lucas trazem, cada um o seu: os magos estão em um, os pastores no outro, como mostramos no estudo sobre onde e quando Jesus nasceu.
A cura do leproso, lado a lado
A cura do leproso é um exemplo da tradição tripla: mais da metade da redação da passagem é idêntica nos três evangelhos [1]. Leia na ARA:
| Mateus 8:2 e 3 (ARA) | Marcos 1:40 a 42 (ARA) | Lucas 5:12 e 13 (ARA) |
|---|---|---|
| "E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me." | "Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me." | "Aconteceu que, estando ele numa das cidades, veio à sua presença um homem coberto de lepra; ao ver a Jesus, prostrando-se com o rosto em terra, suplicou-lhe: Senhor, se quiseres, podes purificar-me." |
| "E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra." | "Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo." | "E ele, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E, no mesmo instante, lhe desapareceu a lepra." |
O pedido é o mesmo nos três: "Se quiseres, podes purificar-me". A resposta também: "Quero, fica limpo!".
E cada um tem algo que os outros não têm. Só Mateus diz que o leproso "adorou-o". Só Marcos registra a compaixão de Jesus. Só Lucas descreve o homem como "coberto de lepra". É o padrão que a fonte aponta: cada evangelho inclui palavras ausentes nos outros dois e omite algo que os outros dois incluem [1].
O que é o problema sinótico?
O problema sinótico é a pergunta sobre a relação literária entre Mateus, Marcos e Lucas: qual foi escrito primeiro e quem usou quem como fonte [1][2].
O próprio Lucas conta que já havia relatos antes do dele. Ele abre o seu evangelho explicando como trabalhou:
"Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído." (Lucas 1:1 a 4, ARA)
Antes de Lucas, "muitos" já tinham escrito. O conteúdo veio de quem viu. E Lucas investigou tudo antes de pôr no papel.
"Testemunhas oculares" traduz o grego autoptēs, que o léxico de Thayer define como aquele que vê com os próprios olhos. A palavra aparece uma única vez no Novo Testamento, justamente em Lucas 1:2 [4].
Lucas não diz quais eram os relatos anteriores. O resto é trabalho de comparação.
Qual evangelho foi escrito primeiro?
O evangelho escrito primeiro foi Marcos, segundo a posição majoritária entre os estudiosos desde o fim do século 19 [1][3]. Existem outras respostas em circulação, e todas partem dos mesmos textos. Quatro das hipóteses:
| Hipótese | Ordem proposta | Como explica as semelhanças | Origem |
|---|---|---|---|
| Duas fontes | Marcos primeiro; depois Mateus e Lucas | Mateus e Lucas usaram, de forma independente, Marcos e uma coleção de ditos de Jesus, chamada Q | Christian Hermann Weisse, 1838; ampliada por B. H. Streeter em 1924 [1] |
| Farrer | Marcos, Mateus, Lucas | Mateus usou Marcos, e Lucas usou os dois. Dispensa a fonte Q | Austin Farrer, 1955; defendida por Michael Goulder e Mark Goodacre [5] |
| Griesbach (dois evangelhos) | Mateus, Lucas, Marcos | Lucas usou Mateus, e Marcos reuniu sobretudo o que os dois têm em comum | Antecipada por Henry Owen em 1764; mencionada por Griesbach em 1783 e desenvolvida por ele em 1789 e 1790; retomada por William Farmer em 1964 [1][6] |
| Agostiniana | Mateus, Marcos, Lucas | Os evangelhos foram escritos na ordem em que estão na Bíblia, cada um conhecendo os anteriores | Agostinho de Hipona, começo do século 5 [1][7] |
A hipótese das duas fontes é a mais aceita [1]. A de Farrer cresce em apoio, sobretudo entre estudiosos ingleses [5]. A de Griesbach é hoje posição de minoria [6]. A de Agostinho é a mais antiga que se conhece [1]: para ele, Marcos segue Mateus de perto e parece "seu acompanhante e abreviador" (A harmonia dos evangelhos, livro 1, capítulo 2) [7].
Por que a maioria põe Marcos em primeiro lugar?
A prioridade de Marcos se apoia em três observações tiradas dos próprios textos [3]:
- A ordem. Quando Mateus e Lucas contam os episódios na mesma sequência, Marcos tem essa sequência também. No material que só Mateus e Lucas compartilham, a ordem quase não coincide.
- O estilo. O grego de Marcos é coloquial: mais da metade dos versículos começa com "e". Para quem defende a prioridade de Marcos, Mateus e Lucas melhoraram o estilo do texto que tinham em mãos.
- As frases difíceis. Marcos diz que Jesus "não pôde fazer ali nenhum milagre" (Marcos 6:5, ARA). Mateus escreve que ele "não fez ali muitos milagres" (Mateus 13:58, ARA). Para quem defende Marcos, a frase dura é a original, e a outra a suaviza.
Veja bem: toda essa evidência é interna, tirada da comparação entre os livros. Quem defende Mateus em primeiro lugar lê os mesmos dados ao contrário e vê Marcos recontando as cenas em estilo mais vivo [3]. Continua sendo hipótese.
O que é a fonte Q?
A fonte Q é uma coleção escrita de ditos de Jesus que teria sido usada por Mateus e por Lucas, e que explicaria o material que os dois têm em comum e que falta em Marcos [8]. O nome vem do alemão Quelle, "fonte", e foi dado pelo teólogo Johannes Weiss [8]. Entrariam nela as tentações de Jesus, as bem-aventuranças e o Pai-Nosso [8].
Q é uma reconstrução. Nenhuma cópia foi encontrada, e Mark Goodacre observa que nenhum escritor da igreja antiga menciona com clareza um documento desse tipo [8].
Quando os evangelhos foram escritos?
As datas dos evangelhos são estimativas de estudiosos, e nenhum dos quatro livros traz o ano em que foi escrito. A síntese que consultamos situa os quatro entre os anos 70 e 100: Marcos provavelmente por volta de 70, Mateus e Lucas por volta de 80 a 90, João de 90 a 100 [9].
Estimar quando um livro foi escrito é diferente de dizer quem o escreveu ou de onde veio o conteúdo, e este estudo fica só na primeira pergunta.
