Lida com as Escrituras que os judeus do século 1 conheciam, a frase "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12) põe em uma pessoa a imagem que as Escrituras usavam para Deus e para o Servo anunciado por Isaías. O Evangelho de João situa a frase em Jerusalém, no contexto da Festa dos Tabernáculos, que lembrava os anos de Israel no deserto. O léxico de Thayer registra que, no Novo Testamento, Jesus é chamado de luz "em sentido preeminente" [1].
Quem lê João 8 de corrido encontra a frase logo depois do episódio da mulher adúltera, e muita explicação liga uma coisa à outra.
Os manuscritos contam outra história. Nos mais antigos, o episódio não aparece em João [2], e a frase sobre a luz fica colada ao capítulo 7, que se passa na festa.
Nos manuscritos mais antigos de João, "Eu sou a luz do mundo" vem logo depois de João 7:52, ainda no clima da Festa dos Tabernáculos. A Mishná descreve essa festa com noites de candelabros acesos no pátio das mulheres do templo.
Neste estudo, com os versículos e as fontes na mesa, você vai ver:
- onde Jesus estava quando disse a frase, segundo João 8:20;
- o que a Mishná descreve sobre a iluminação do templo;
- por que a frase não vinha depois da mulher adúltera nos manuscritos antigos;
- o que "luz" queria dizer para quem conhecia Êxodo, Salmos e Isaías;
- o sentido de phōs, skotia e zōē no grego;
- a relação entre "Eu sou a luz do mundo" e "Vós sois a luz do mundo".
O que diz João 8:12 e onde Jesus estava quando falou?
João 8:12 registra Jesus dizendo, no templo de Jerusalém, que ele é a luz do mundo.
"De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida." (João 8:12, ARA)
Oito versículos adiante, vem o endereço:
"Proferiu ele estas palavras no lugar do gazofilácio, quando ensinava no templo; e ninguém o prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora." (João 8:20, ARA)
Gazofilácio vem do grego gazophylakion, "tesouro", a mesma palavra da cena da oferta da viúva pobre (Marcos 12:41) [3]. O léxico informa que Josefo fala de tesouros no pátio das mulheres do templo de Herodes e que, no Novo Testamento, o termo parece indicar o lugar das treze caixas de ofertas [3].
A nota da Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) é mais cautelosa: o nome podia valer para a esplanada em volta do edifício do tesouro, "a não ser que se trate do lugar do pátio das mulheres onde se achavam as caixas de esmolas" [4]. O ponto exato fica em aberto. O pátio das mulheres é o que as duas fontes têm em comum.
A festa por trás da frase
O capítulo 7 de João avisa em que época a cena acontece: "a festa dos judeus, chamada de Festa dos Tabernáculos, estava próxima" (João 7:2, ARA). No meio da festa, Jesus sobe ao templo para ensinar (João 7:14). E então:
"No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba." (João 7:37, ARA)
A Lei explica o que a festa celebrava: "Sete dias habitareis em tendas de ramos", para que as gerações soubessem "que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito" (Levítico 23:42 e 43, ARA). Segundo a nota da TEB, a festa caía em setembro e evocava o Êxodo [4].
Como era a iluminação do templo na Festa dos Tabernáculos?
A iluminação do templo na Festa dos Tabernáculos é descrita na Mishná, no tratado Sucá, capítulo 5. Ao fim do primeiro dia da festa, descia-se ao pátio das mulheres, e ali começava uma celebração noturna [5].
| Elemento | O que a Mishná descreve | Onde está |
|---|---|---|
| Candelabros | Candelabros de ouro, com bacias de ouro no alto, que jovens sacerdotes enchiam de óleo subindo por escadas | Sucá 5:2 |
| Alcance | "Não havia pátio em Jerusalém que não fosse iluminado" por aquela luz | Sucá 5:3 |
| Dança | Homens piedosos dançavam com tochas acesas nas mãos | Sucá 5:4 |
A Mishná chama a celebração de alegria "do lugar da retirada da água" e diz que quem nunca a viu "nunca viu alegria em todos os seus dias" (Sucá 5:1) [5]. O pátio das mulheres recebia homens e mulheres: o nome marcava o ponto além do qual elas não podiam avançar no templo [6].
Água e luz. No relato de João sobre essa festa, Jesus fala de água (7:37) e depois de luz (8:12).
O que as fontes não dizem
Três limites:
- A data. A Posen Library data o trecho entre os anos 70 e 220 [6]. O registro escrito é posterior aos dias de Jesus.
- O silêncio de João. O evangelho não menciona candelabros nem tochas.
- O símbolo. A Mishná não explica o que a luz representava. Ligar os candelabros à coluna de fogo do Êxodo é leitura possível, e o texto não a afirma.
O que dá para afirmar é a coincidência: a mesma festa, o mesmo templo e, se o gazofilácio ficava no pátio das mulheres, o mesmo pátio.
João 8:12 vem logo depois da mulher adúltera?
João 8:12 vinha logo depois de João 7:52 nos manuscritos mais antigos do evangelho. O trecho de João 7:53 a 8:11 falta no Papiro 66, no Papiro 75, no Códice Sinaítico e no Códice Vaticano, cópias dos séculos 3 e 4 [2].
| Onde | O que acontece com João 7:53 a 8:11 | Fonte |
|---|---|---|
| Papiros 66 e 75, códices Sinaítico e Vaticano | O trecho não consta | [2] |
| Códice de Beza, greco-latino, por volta do ano 400 | Manuscrito mais antigo de João com o trecho | [2] |
| Outros manuscritos | O trecho vai para o fim do evangelho, para depois de João 7:36 ou 7:44, ou para depois de Lucas 21:38 | [2][4] |
| Leitura de Pentecostes na liturgia bizantina | Vai de João 7:37 a 8:12 e pula o trecho | [2] |
A própria ARA sinaliza: nas duas edições do acervo, um colchete abre em 7:53, "[E cada um foi para sua casa", e só fecha no fim de 8:11.
Tommy Wasserman, professor de estudos bíblicos na Noruega, resume: há "um amplo consenso acadêmico de que a história não fazia parte originalmente do Evangelho de João" [2]. O mesmo autor diz que ela "tem as marcas de uma história genuína dos evangelhos" [2], e a nota da TEB acrescenta que "o seu caráter canônico não é contestável" [4].
O que muda na leitura
Sem o trecho, o texto corre assim: Jesus exclama no último dia da festa (7:37), a multidão se divide (7:40 a 44) e os fariseus discutem com Nicodemos (7:45 a 52). Na linha seguinte: "De novo, lhes falava Jesus".
Repara no detalhe. Uma leitura possível é que esse "de novo" retome a fala de 7:37, na mesma festa. A leitura bizantina de Pentecostes, que pula o episódio, guardou essa sequência [2].
O que "luz" significava para os judeus do século 1?
"Luz", nas Escrituras que os judeus do século 1 conheciam, é uma imagem de Deus conduzindo e salvando o seu povo. A cena de origem é a do deserto, a mesma que a festa lembrava:
"O Senhor ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho; durante a noite, numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite." (Êxodo 13:21, ARA)
Os Salmos transformam a cena em confissão: "O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?" (Salmos 27:1, ARA). Isaías põe a luz no futuro: "O povo que andava em trevas viu grande luz" (Isaías 9:2, ARA).
E o mesmo profeta dá a luz como tarefa ao Servo do Senhor, com alcance além de Israel:
"também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra." (Isaías 49:6, ARA)
Lida com esses textos ao fundo, a frase "eu sou a luz do mundo" põe quem fala no lugar que eles davam a Deus e ao Servo.
Quem estava ouvindo
O público de Jesus naquela festa era judeu, como o próprio Jesus (veja o estudo sobre se Jesus era judeu), e reagiu de modos diferentes. Parte da multidão dizia: "Ele é o Cristo" (João 7:41, ARA). Nicodemos, que era fariseu, pediu que ele fosse ouvido antes de ser julgado (João 7:50 e 51). E o diálogo termina assim: "Ditas estas coisas, muitos creram nele" (João 8:30, ARA).
Os fariseus que respondem em João 8:13 são um grupo dentro desse público. A objeção deles é jurídica: quem depõe a favor de si mesmo não serve de prova. Jesus responde com a regra da própria Lei, a das duas testemunhas (Deuteronômio 19:15), e apresenta o Pai como a segunda (João 8:17 e 18).
