Evangelhos apócrifos são escritos antigos sobre Jesus que ficaram fora do Novo Testamento. Os mais conhecidos levam os nomes de Tomé, Pedro, Maria, Judas, Filipe e Tiago, e a pesquisa data quase todos do século 2 em diante [1]. As listas antigas de livros aceitos não os incluem, e os motivos estão em fontes abertas, de Irineu de Lião (por volta de 180) a Atanásio (367).
No levantamento de buscas que fizemos para este blog em setembro de 2026, "evangelhos apócrifos" aparece com 2.470 pesquisas por mês. A pergunta costuma vir com uma história pronta: a de que um concílio, sob o imperador Constantino, escolheu quatro evangelhos e descartou o resto.
Irineu de Lião já tratava os quatro evangelhos como um conjunto fechado por volta do ano 180, cerca de 145 anos antes do Concílio de Niceia. Os apócrifos são documentos históricos, e ficaram fora do cânon por um processo longo de uso nas igrejas.
Neste estudo, com os versículos e as fontes na mesa, você vai ver:
- o que significa "apócrifo" e a diferença para "deuterocanônico";
- os sete evangelhos apócrifos mais conhecidos, com a data estimada, o manuscrito e o conteúdo de cada um;
- os versículos em que o problema já aparece no Novo Testamento;
- o que Irineu, Eusébio e Atanásio escreveram sobre os quatro evangelhos;
- de onde veio a ideia de que o Concílio de Niceia escolheu os livros da Bíblia.
O que significa "apócrifo"?
Apócrifo vem do grego apokryptein, "esconder" [2]. Na literatura bíblica, a Britannica define apócrifos como obras "fora de um cânon aceito de escritura" [2]. Cânon é a lista dos livros aceitos.
A palavra nomeou primeiro escritos reservados a poucos leitores, que foram "de início valorizados, depois tolerados e por fim excluídos" [2].
Apócrifo é o mesmo que deuterocanônico?
Apócrifo e deuterocanônico são duas discussões diferentes. Deuterocanônicos são livros e trechos do Antigo Testamento, como Tobias, Judite, Sabedoria e 1 e 2 Macabeus [3]. A Igreja Católica e as igrejas ortodoxas os têm como canônicos. O protestantismo e o judaísmo rabínico os classificam como apócrifos [3].
O termo "deuterocanônico" foi criado em 1566 por Sisto de Siena e quer dizer "do segundo cânon" [3]. Nenhum evangelho entra nessa conversa: os evangelhos apócrifos estão fora dos cânones bíblicos das grandes tradições cristãs de hoje [1].
Quais são os evangelhos apócrifos?
Os evangelhos apócrifos mais conhecidos são o Evangelho de Tomé, o de Pedro, o de Maria, o de Judas, o de Filipe, o Protoevangelho de Tiago e o Evangelho da Infância de Tomé. A tabela reúne o que a pesquisa diz sobre cada um:
| Texto | Composição estimada | Manuscrito: onde e quando apareceu | Do que trata |
|---|---|---|---|
| Evangelho de Tomé | Século 2 para a maioria; há propostas do ano 60 ao 250 [4] | Perto de Nag Hammadi, Egito, em dezembro de 1945; códice copta de cerca de 340 [4] | 114 ditos atribuídos a Jesus, sem crucificação nem ressurreição [4] |
| Evangelho de Pedro | Século 2 [1][5] | Akhmim, Alto Egito, 1886, em uma sepultura; pergaminho dos séculos 8 a 12, publicado em 1892 [5] | Fragmento sobre a paixão, o sepultamento e a ressurreição; Herodes é o juiz que condena Jesus [5] |
| Evangelho de Maria | Século 2 [6] | Códice de Berlim, copta, do século 5, comprado no Cairo em 1896; faltam dez páginas [6] | Jesus responde aos discípulos e parte; Maria conta uma visão, que André e Pedro rejeitam [6] |
| Evangelho de Judas | Século 2, antes de 180 [7] | Códice Tchacos, copta, achado nos anos 1970 perto de Maghagha, Egito; carbono 14 entre 220 e 340; publicado em 2006 [7] | Diálogos de Jesus com os discípulos, sobretudo com Judas Iscariotes [7] |
| Evangelho de Filipe | Século 3 para a maioria [8] | Nag Hammadi, 1945, no mesmo códice do Evangelho de Tomé [8] | Coleção de ditos sobre ritos como batismo, unção e casamento [8] |
| Protoevangelho de Tiago | Século 2, depois de 150 [9] | Papiro Bodmer 5, dos séculos 3 ou 4, descoberto em 1952; mais de 100 manuscritos gregos sobreviveram [9] | Nascimento e infância de Maria, filha de Joaquim e Ana, até o parto em uma gruta, a caminho de Belém [9] |
| Evangelho da Infância de Tomé | Século 2 [10] | O manuscrito mais antigo é um fragmento de papiro grego dos séculos 4 ou 5, identificado em 2024 [10] | Jesus dos 5 aos 12 anos, com os pássaros de barro que ganham vida [10] |
Quantos evangelhos apócrifos existem? Ninguém tem um número fechado. As listas modernas reúnem dezenas de títulos antigos, e muitos sobrevivem só em fragmentos ou em citações de outros autores [1].
Repara no detalhe. O Protoevangelho de Tiago circulou muito, e é o primeiro texto a dar o nome Ana à mãe de Maria [9].
O Evangelho de Tomé enfileira ditos de Jesus sem contar uma história, e a data divide os estudiosos: daí a faixa larga na tabela [4]. Os manuscritos, as datas propostas e os ditos estão no estudo sobre o Evangelho de Tomé. O Evangelho da Infância de Tomé é outro livro, e os manuscritos mais antigos dele nem trazem o nome de Tomé [10].
O que os evangelhos apócrifos dizem?
Os evangelhos apócrifos dizem coisas bem diferentes entre si. Alguns narram a infância, um narra a paixão, e outros reúnem ditos e diálogos.
Infância. O Protoevangelho de Tiago apresenta José como um viúvo idoso, com filhos crescidos, e é apontado como o mais antigo texto conhecido a afirmar a virgindade perpétua de Maria [9]. O parto acontece em uma gruta, antes da chegada a Belém, a cidade do estudo sobre onde e quando Jesus nasceu. O Evangelho da Infância de Tomé mostra um menino que dá vida a pássaros de barro e que, em outro episódio, amaldiçoa um garoto, que morre [10]. O livro termina com Jesus aos 12 anos no templo, cena de Lucas 2:41 a 52 [10].
Paixão. No fragmento do Evangelho de Pedro, que começa depois de Pilatos lavar as mãos, Jesus fica na cruz em silêncio, "como se não tivesse dor", e depois clama: "Meu poder, meu poder" [5].
Ditos e diálogos. No Evangelho de Filipe, a passagem famosa sobre um beijo em Maria Madalena está em uma página danificada: falta a palavra que diria onde, e os editores divergem [8].
O Evangelho de Judas tem a própria disputa. A tradução de 2006 apresentou um Judas que obedece a instruções de Jesus. A pesquisadora April DeConick contestou a tradução e lê o Judas do texto como um demônio que trai de verdade [7]. O debate continua aberto.
Os "outros evangelhos" já aparecem no Novo Testamento?
A circulação de outros relatos e de outras mensagens sobre Jesus já aparece dentro do próprio Novo Testamento. Lucas abre o seu evangelho avisando que não foi o primeiro a escrever:
"Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído." (Lucas 1:1 a 4, ARA)
Lucas não diz quem eram esses "muitos" nem os critica. Informa a origem do material: as testemunhas oculares.
Paulo é mais duro. Ele fala de pregação, e "evangelho" aqui é a mensagem anunciada:
"Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema." (Gálatas 1:6 a 8, ARA)
Paulo menciona ainda a possibilidade de uma carta circular em seu nome. Ele pede aos tessalonicenses que não se perturbem "quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós" (2 Tessalonicenses 2:2, ARA).
Anátema, amaldiçoado ou excomungado?
As traduções em português não concordam sobre a palavra final de Gálatas 1:8 e 9:
| Tradução | Gálatas 1:8 | Gálatas 1:9 |
|---|---|---|
| Almeida Revista e Atualizada (ARA) | "seja anátema" | "seja anátema" |
| King James Fiel 1611 | "que seja ele amaldiçoado" | "que ele seja amaldiçoado" |
| Nova Versão Internacional (NVI) | "que seja amaldiçoado!" | "que seja amaldiçoado!" |
| Ave Maria | "que ele seja anátema" | "seja ele excomungado!" |
O grego é anathema, que aparece seis vezes no Novo Testamento [11]. Na tradução grega do Antigo Testamento, a palavra costuma verter o hebraico cherem: algo entregue a Deus sem possibilidade de resgate e, por isso, destinado à destruição [11]. Para o Novo Testamento, o léxico de Thayer registra maldição ou pessoa amaldiçoada, e o dicionário de Strong fala em pessoa excomungada [11]. A ARA manteve a palavra grega.
